
Nas últimas semanas de faculdade, há pouco mais de dez anos, dediquei-me a recolher os contactos de quem, por uma razão ou outra, ainda não tinha. A maioria ofereceu-me o telefone de casa, muitos o telemóvel. Uma lista em papel que foi da maior utilidade quando, uns anos depois, contribuí para dar forma a um jantar de reencontro de que resultou uma versão actualizada da agenda. O telefone de casa, que passou a rarear, deu então lugar ao cartão de visita da empresa. Da maioria guardei o telemóvel, quase sempre actualizando o número anterior, ainda da época do 0931 e 0936, ou acrescentando mais um, e o email, entretanto promovido a contacto preferencial. Hoje, para mantermos contacto, usamos a Internet.
É-nos tão evidente e quotidiano que já nem nos questionámos porque razão, de forma repentina e quase ser darmos por isso, esta se substitui a outra vias de contacto. Contudo, o extraordinário é que essa ligação, que permite uma interacção próxima e regular, revela-se mais dinâmica do que jamais foi por outras vias. E tanto serve de base para partilhar a fotografia de mais um filho como uma oportunidade de negócio, um vídeo com interesse ou uma oferta de emprego, uma experiência profissional ou uma sugestão de viagem. Mais extraordinário ainda é que essa ligação se estende deste para outros grupos de pessoas, de outros anos, de outros cursos. E enquanto cresce, esta é uma rede que se dinamiza e auto-regula. Sem recurso a avultados investimentos ou talentos informáticos especiais. Pelo contrário. Esta é, pois, uma simples mas evidente expressão de quão poderoso é o upgrade que permitiu à World Wide Web apresentar uma versão 2.0. O que é a web 2.0 de que tanto se fala? Trata-se sobretudo da explosiva combinação de duas dimensões, o user generated content e o social networking, que está a contribuir para uma acelerada alteração de hábitos, na forma como nos relacionamos e hierarquizamos as fontes de informação. Que faz de cada um de nós um ”meio de massas”, a quem é permitido produzir conteúdo e rapidamente o veicular para um número significativo de pessoas.
De diferentes formas, com distintas abordagens, são muitas as universidades e escolas de negócio que têm procurado tirar partido desta “nova” realidade, nalguns casos criando as suas próprias redes (essa foi, aliás, uma das motivações que esteve na origem do Facebook), noutros disponibilizando vídeos com aulas ou mesmo formações completas (veja-se o exemplo de Academic Earth, que reúne sete das mais reputadas universidades norte-americanas: Berkeley, Harvard, MIT, Princeton, Stanford, UCLA e Yale). Seja qual for o caminho, o essencial é que neste ambiente colaborativo não fazer nada, não é opção. Porque mesmo de forma “não oficial” alguma coisa já estará a acontecer. Com instituições de ensino e empresas – em torno das quais as pessoas se organizam, por exemplo em grupos de alumni espontaneamente criados no Linkedin – personalidades ou marcas – seguidas, nalguns casos por milhões de fãs, em redes como o Facebook.
A oportunidade? Tornar o momento de formação, um activo que por si só molda e marca, numa contínua transformação, promovendo a ligação e colaboração entre alunos, alumni e claustro. Como? Usando a capacidade agregadora da escola para estender a experiência no tempo, de forma continuada e sustentada. Ou seja, fazer do último dia de aulas o princípio e não o fim.
Originalmente publicado no Diário Económico de 08.09.2009